• 1 Estou cansado de viver! Deixem-me queixar livremente; deixem-me exprimir a minha tristeza e amargura!
  • 2 Direi a Deus: Não me condenes! Diz-me, antes, por que razão contendes comigo.
  • 3 Parece-te realmente justo oprimires-me e desprezares-me, a mim, um ser humano que tu criaste, e dar alegria e prosperidade ao malvado?
  • 4 Tens tu uma mente carnal, como toda a gente?
  • 5 Será a tua vida como a de um mortal ou serão os teus anos como os anos de um homem,
  • 6 para que tentes encontrar em mim qualquer culpa ou pecado?
  • 7 Bem sabes que não sou culpado; todavia ninguém há que me salve das tuas mãos!
  • 8 Tu criaste-me e mesmo assim destróis-me.
  • 9 Oh! Peço-te que te lembres que sou feito de terra! Irás fazer-me de novo em pó, assim tão depressa?
  • 10 Já me tens andado a vazar de jarro para jarro, como leite, e coalhaste-me como queijo.
  • 11 Juntaste os meus ossos, entreteceste os meus nervos, revestiste-me de carne e de pele.
  • 12 Deste-me vida, revelaste para comigo atenção e amor, fui protegido pelos teus cuidados.
  • 13 E afinal tinhas uma intenção bem definida.
  • 14 Caso eu pecasse, destruir-me-ias e recusarias perdoar a minha iniquidade.
  • 15 Portanto, à mais leve maldade, eu estava já liquidado! No entanto, no caso de eu ser justo, isso não contava; por isso, sinto-me totalmente frustrado.
  • 16 Se começo a tentar erguer-me, saltas sobre mim como um leão e rapidamente acabas comigo.
  • 17 Renovas, sem cessar, os teus testemunhos contra a minha pessoa e derramas sobre mim um volume cada vez maior de ira. Para atacar-me tens os teus exércitos.
  • 18 Porque foi então que me deixaste nascer? Podia ter morrido, sem que ninguém me chegasse a ver.
  • 19 Seria como se não tivesse existido; teria simplesmente passado do ventre de minha mãe para o túmulo.
  • 20 Não vês como me fica pouco tempo para viver como queria? Oh! Deixa-me em paz para que possa ainda ter um momento de descanso,
  • 21 antes de partir para a terra das trevas, das sombras da morte, para nunca mais regressar.
  • 22 Terra tão escura como noite cerrada sem luar; terra do silêncio da morte onde não existe ordem ou lógica, onde o clarão mais intenso em nada altera as trevas.”

Versículos 1-7: Jó queixa-se de suas dificuldades; 8-13; Jó apela fervorosamente a Deus como seu Criador. 14-21: Ele se queixa da severidade de Deus.

Vv. 1-7. Por estar cansado da vida, Jó resolve queixar-se; porém, não acusa a Deus de injustiça. Aqui ele ora e pede que seja livre do aguilhão de suas aflições, que é o pecado. Deus contende conosco quando permite que sejamos afligidos, e quando isto acontece sempre há uma razão; é desejável que a conheçamos para nos arrependermos e abandonarmos o pecado pelo qual Deus contende conosco. Quando falamos como Jó, com amargura em nossa alma, aumentamos a culpa e o sofrimento. Não abriguemos maus pensamentos contra Deus: e daí por diante veremos que não existe causa para eles. Jó está certo de que Deus não expõe publicamente as coisas nem as julga como fazem os homens; portanto, pensa ser estranho que Deus o aflija, como se utilizasse o tempo para inquirir o seu pecado.

Vv. 8-13. Jó parece discutir com Deus como se Ele somente o tivesse formado e preservado para a desgraça. Estes corpos podem ser instrumentos de injustiça, mas também são capazes de ser templos do Espírito Santo! A alma é a vida, o homem será conforme a sua alma, e esta é uma dádiva de Deus. se argumentamos conosco como indução ao dever, "Deus me fez e me sustenta", poderíamos argumentar em prol da misericórdia: "Tu me fizeste, faz-me de novo; eu sou teu, salva-me".

Vv. 14-22. Jó não nega que, como pecador, merece seus sofrimentos; só pensa que a justiça para ele é executada com rigor peculiar. seu desalento, incredulidade e maus pensamentos acerca de Deus podem ser atribuídos a tentações internas por parte de Satanás, e à angustia de sua alma, submetida à sensação do desagrado de Deus, às suas provas externas, e aos vestígios de depravação. Nosso Criador, feito também nosso Redentor em Cristo, não destruirá a obra de suas mãos em nenhum crente humilde, mas o renova para a santidade, a fim de que possa desfrutar a vida eterna. se a angustia na terra faz com que a sepultura seja um refúgio desejável, qual será o estado dos que estão condenados à escuridão das trevas para sempre? Que todo pecador busque a libertação deste estado espantoso, e cada crente agradeça a Jesus por tê-lo livrado da ira vindoura.

Comentário Bíblico de Matthew Henry domínio público

Recurso de Estudo
Palavras no original
Hebraico e grego: STEP Bible (Tyndale House, Cambridge) · CC BY 4.0